meu ou seu? nosso?

A prova de que os sentimentos que ligam as pessoas, ou que umas suscitam nas outras, não pertencem nem a um nem a outro, ou pertencem aos dois inseparavelmente, é que se cada uma fosse subtraído da fórmula que os puseram juntas, tais sentimentos jamais nasceriam. De modo que não pode ser verdadeiro a formulação de que o amante apenas ama seu próprio desejo pelo amado, como sugere Roland Barthes (Fragmentos de um discurso amoroso). Se o objeto do amor não existisse, também inexistiria o amor criado pelo amante pelo seu objeto. Quando afirma-se que o amante ama de fato seu próprio amor pelo seu objeto amoroso, a única verdade disto é que ele irá administrar do modo que quiser a sua fatia desse amor. Afirmar isto é apenas dizer que o universo dos efeitos sempre pertenceu ao imprevisível, desconhecido e indominável mundo da subjetividade e interioridade de cada um. Os sujeitos tanto passam a vida recriando este combústivel amoroso em delírios e devagações românticas orquestrados pela sua imaginação, quanto outros lutam sem parar para conquistar e manter uma relação viva e contínua com a pessoa que lhe originou este sentimento de amor assegurando a continuidade desta conexão, ou transformam este combustível em novas relações amorosas e mesmo transubstancializam esta energia em outras instâncias da criatividade humana.

Assim, pode-se acrescentar que o que faremos com estes sentimentos suscitados e que tratamento cada um dará a ela é uma outra história inteiramente independente do cenário que as criou. Por isso cada um reage ao seu modo à estes sentimentos. Daí as diferenças gritantes entre como cada um se organiza e reage a tais combustíveis afetivos. Daí temos as escalas que variam da harmonia sublime à desarmonias mortais. Quando as duas partes chegam a escalas de harmonia estamos no terreno dos encontros amorosos. Quando as escalas tendem a desarmonia, nos encontramos nos cenários de guerra, hostilidade, do famoso ódio que associamos aos que se definem como inimigos. O que de fato pertence a cada um é como e que tratamento será dado à esses sentimentos. Como cada um agenciará e dará curso à eles. Como cada um encenará a força da sua presença no palco do seu cotidiano.

Mas como aplicar esta equação nos casos em que a diferença da experiência convergem para uma nítida desigualdade, quando uma das partes sente-se sob o efeito da paixão enquanto o mesmo não ocorre com a outra parte? Por que se dá este resultado, já que os sentimentos evocados em um foram provocados pela presença do outro? Isto resulta nada a mais por causa da velha formula de que numa dada circunstância vivida por duas pessoas num mesmo espaço, tempo e evento, ambos sofrem de modo distinto os efeitos desta experiência. E só. Isto não altera o fato da força da presença que aquela individualidade exerce na outra. E não reside no fato de que o outro fantasiou sozinho seu amor por aquele objeto do seu desejo. Ele fantasiou via o estímulo de uma presença específica que nele agiu e sem o qual nada teria sido fantasiado.
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