Laiz Souza Resenha o Cabaré Total Edição Especial de 10 anos de uma nova safra de palhaços na Bahia



Sobre o Cabaré Total Especial de 10 anos dos palhaços

Achei muito interessante a cena O Desafio e o modo como Biancorino chamava a atenção apenas com o choro, que lembrava o de uma criança histérica, enquanto o outro era forte e atraente, Biancorino chamava a atenção de Ricota e de toda a platéia com um simples choro, e mesmo dando presentes inferiores ao do outro palhaço, ela termina optando por ele, só acho que quando ele conseguiu ficar com Ricota, ficou estranha a finalização, porque eu fiquei na dúvida e também vi muita gente na platéia se perguntando o porquê dele ter fugido, acredito que foi porque ele não gostou do beijo dela ou algo assim, mas acho que isto não ficou muito claro e neste momento o que causou mais riso foi a cara de decepção de Ricota.

Achei legal, também, como Ricota que parecia muito doce ao estar sendo cortejada pelos dois pretendentes, mudou subitamente passando a mandona e agressiva, obrigando Biancorino a tirar a roupa, e a maneira com a qual Ricota simplesmente olha o público, é muito direta e precisa, chegando a parecer que somos cúmplices da ação que ela está cumprindo e nos levando a alegria quando ela consegue seu objetivo. Muito legal o jogo que ele faz como se quisesse esconder o pênis para a platéia não ver e termina mostrando todas as vezes em que vira de costas, terminou tornando-se menos vulgar e muito mais engraçado do que se ele simplesmente tirasse a roupa e ficasse nu, porque quando ele esconde e ao mesmo tempo deixa a mostra, remete as frustrações, as perdas, do palhaço e isto causa o riso em quem assiste.

A cena de Palitolina com o cabide eu já havia visto umas duas vezes, mas fico admirada a cada vez que assisto. É fantástica a maneira com que ela se relaciona com o cabide e conosco, nos envolve a ponto de parecer que realmente estamos vendo uma pessoa contracenando com ela. Acredito que seja muito difícil a realização desta cena, já que para tornar mais real ela se utiliza de movimentos simples dos dois personagens, como por exemplo, enquanto o suposto homem ajeita o chapéu, Palitolina ajeita sua roupa ou comenta algo com o público, como se realmente fosse duas pessoas distintas, a praticar ações independentes.





A cena de Biancorino com o palhaço de Demian (Tezo), na qual Biancorino é seu garçom, eu também já havia assistido, mas sempre me leva as gargalhadas, ela é um bom exemplo do branco e do augusto, enquanto o palhaço de Demian é serio, intelectual e autoritário, Biancorino é bêbado, desajeitado e irresponsável, porém é este ser “inferior” que tira proveito das situações ocorridas na cena. Biancorino, molha o patrão, bebe a sua bebida, atrapalha-o na leitura, entre outras coisas e mesmo assim leva a melhor, não acontecendo nada de ruim com ele. A maneira como Casali realiza as ações de Biancorino, nos faz crer que, por mais absurdas que sejam as maneiras encontradas por ele de realizar as ações, ele realmente quer praticá-las, e nos faz torcer para que ele consiga realizá-las, porém, mesmo não conseguindo êxito em suas ações, Biancorino não se deixa abater, persistindo, e fazendo sempre do seu erro uma nova maneira de tentar acertar. Sem contar que, apesar de ser o “burro” da historia, ele consegue enrolar seu cliente, bebendo sua bebida e colocando a de volta no mesmo lugar enquanto o cliente lê, numa tentativa de convencê-lo que ele mesmo que bebeu. Ele prova que o augusto, mesmo com todo seu descontrole e falta de jeito, consegue ludibriar o branco, intelectual e supostamente inatingível.

Muito legal também as cenas das meninas do Nariz de Cogumelo, levando a mostra a característica do palhaço de errar tentando acertar, e articulam de maneira engraçada este desacerto, até o momento em que elas se realizam ao alcançar a sua desejada apresentação. Também no grupo ficava muito evidente quem era o branco, sempre mandão e calculista, era a palhaça que ficava no centro do grupo (desculpa, mas não sei o nome) e que as outras eram augusto. Estas sempre davam um jeito de querendo acertar, atrapalhar e atrasar a apresentação, tirando o augusto do serio e levando a apresentação a “falência”.

Achei muito interessante e também muito arriscado, a participação de pessoas do público no espetáculo. Se houvesse um erro na escolha da pessoa poderia emperrar a apresentação, por ser uma pessoa muito tímida ou que se ofendesse com algum tipo de brincadeira ali promovida, mas os palhaços souberam como envolver as pessoas, fazendo com que essas achassem graça de seus próprios “micos” e ajudassem os palhaços a tirar riso dos demais da platéia.

Apenas não gostei do espetáculo ter atrasado, pois é uma característica que esta se tornando comum para a Sitorne, o atraso das apresentações. Eu mesmo tenho o grande defeito de me atrasar para quase todos os meus compromissos e estou severamente tentando corrigir isto, porém é muito difícil. Mas para um espetáculo, a gravidade deste defeito aumenta, e, nós, pessoas próximas, alunos, parentes, e amigos podemos suportar, mas quem vem de fora, termina achando que se trata de falta de organização e pode sair com más impressões. Quanto ao atraso no final, achei normal, já que se tratava de uma edição especial com muito mais palhaços e cenas. Achei que dentre os outros cabarés que já havia assistido aqui, este foi o melhor de todos, saí de lá maravilhada com tudo que havia assistido. Só senti falta de assistir a Rafael e Tânia Morais, também aniversariantes que eu pensei que estariam presente.


(Primeira turma de iniciação do curso técnico profissionalizante da Sitorne. Foto: Eduardo Ravi)
(Laiz Maria dos Santos de Mesquita Souza é aluna da disciplina Palhaçaria, ministrado este semestre por Demian Reis, do curso técnico profisionalizante da arte de palhaço da Sitorne Teatro.)
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