RESENHA sobre o Coringa em “Batman- O Cavaleiro das Trevas”, por Lívia Michele Carlos Pinheiro



Começo fazendo uma pequena sinopse do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Neste a máfia de Gotham City é combatida pelo Tenente Gordon e pelo íntegro promotor Harvey Dent com a ajuda do Batman. Mas os criminosos viram o jogo quando recebem a ajuda do traiçoeiro e brilhante Coringa, que espalha uma onda de terror por Gotham ao manipular, com precisão, o medo da população da cidade.

No fundo, Batman - O Cavaleiro das Trevas, é um filme que mexe com os segredos mais bem guardados da psique humana. Tudo aquilo de ruim que tentamos esconder na sombra de nossa imagem pública, O Cavaleiro das Trevas revela, ridiculariza, ateia fogo e se embriaga com nosso medo.

O principal condutor desse turbilhão de sentimentos e reflexões é o vilão da história: o Coringa. Imprevisível, manipulador, sempre ameaçador e freqüentemente engraçado. Ele entende que Batman, mais do que um justiceiro, é a figura que dá sentido à sua existência enquanto vilão propagador do caos. Mais do que dinheiro, ele deseja notoriedade.

A partir daqui é que começo uma análise sobre o comportamento deste vilão e suas semelhanças com o arquetípico papel do clown. Percebo que este vilão não teria melhor representação do que a de um palhaço, figura onde tudo é ressaltado, sejam seus atos heróicos, seja sua dor e imbecilidade. Ressalto ainda que o Coringa apesar do seu papel denso na trama não deixa de ser um tipo cômico, afinal de contas, Coringa e deboche são duas palavras que se confundem durante várias cenas do filme. Destaque para cena em que o Homem-Risada aparece vestido de enfermeira. Impagável.

O Coringa é visivelmente inspirado no palhaço. A maquiagem e o figurino são inquestionáveis signos de identificação da linguagem do palhaço. A maquiagem do Coringa utiliza as cores básicas: preto, branco e vermelho; os olhos são bem marcados e a boca destacada; usa ainda um figurino que é aparentemente requintado se não fosse pelas cores do traje escolhido e os cabelos são coloridos (esverdeados) e desarrumados. Trata-se de uma representação simbólica, capaz de resumir a um espectador, de forma evidente e imediata, que está diante da ambígua, polêmica e paradoxal figura do palhaço.

Para além da maquiagem e figurino, o Coringa é reconhecido como um palhaço também pela sua função no filme. Ele é o denunciador das mazelas humanas. Coloca isso de forma nua e crua. Amoral, o Coringa, é um sujeito sem remorso, culpa ou piedade, um vilão que aprecia o sabor da morte, pois é na iminência dela que as máscaras caem e se pode conhecer a verdadeira face das pessoas.

É aí que podemos começar a entender melhor porque escolher a figura do palhaço para representar um vilão. Segundo Reis (2010):

“Palhaços escavam por dentro de quem constitui e sente o mundo tão visceralmente que o impacto sobre o espectador é quase sempre violento, exagerado, com uma medida de estranheza, e até terror, com feiúra, com todas as variáveis emocionais, do amor ao ódio. Porque tudo isso está soterrado em nossa humanidade. A humanidade de nossos corpos demasiado humanos.”

O palhaço é algo em estado puro, primitivo, que se liga ao mundo com o mínimo de amarras possíveis. É uma energia viva, é a sinceridade de se assumir limitado, de assumir a dor e ser capaz de rir com o objetivo de transgredir. Clown é transgressão de regras; o Coringa como bom clown é pura transgressão.

O palhaço é um transgressor e isto ocorre no momento em que, mesmo de forma sutil, oferece uma nova possibilidade para aquilo que se encontrava rígido há tempos. É a personificação do insólito, do não usual, da não norma. Ao palhaço todas as cores, formas e ações são permitidas. E já que ele possui essa permissão para brincar, acaba desempenhando um papel de questionador social.

O papel do palhaço seria o de questionar a ordem social e não exatamente o de modificá-la. O palhaço é a constante escapulida, a subversão da ordem e a subversão da subversão, pois uma vez subvertida, seu produto já não interessa mais; é nova ordem. Seu prazer está em agir e provocar uma agitação no público, incitando-o a repensar o mundo e a si próprio. O clown pode, neste movimento, ser um agente da ordem, mas nunca sem antes lançar sobre ela todas as suas cores, objetivando uma maior reflexão e ampliação do homem e de seu meio, agindo em seu imaginário.

O Coringa tem exatamente este papel no filme. Coringa é tão louco que queima dinheiro. O que representa isso? Que vilões devem desejar mais do que simplesmente grana? Provavelmente quase nenhum. Entretanto, todo bandido que busca dinheiro obedece a uma lógica matemática, o Coringa não. O vilão deseja apenas grana suficiente para comprar dinamite, gasolina e pólvora, ingredientes suficientes para provar que o mais incorruptível dos cidadãos não presta. Coringa representa o caos, é ele quem faz o circo pegar fogo.

Ele é ainda a representação do vazio: a diluição da máscara do civilizado que comumente colocamos sobre nossa natureza animal. Representa a renúncia de conceitos e valores na busca de um estado de esvaziamento, no qual o ser humano não tenta Ser, apenas está para a relação (com o meio e com os outros). O estado de “vazio” cria espaços às manifestações primitivas, destituídas de uma lógica convencional.

A função deste clown no filme é levantar a reflexão sobre o dilema de que nós todos temos que nos submeter ao limite do nosso gozo, devido às regras que são impostas pela vida em sociedade. Para isto ele utiliza as ferramentas da expressividade autêntica destituída de convencionalismos morais, a liberdade, a disponibilidade de correr riscos, o contato com a voz interior, a abertura e interatividade, o gestual jocoso e provocativo, a aceitação de necessidades emocionais verdadeiras, a superação de antigos condicionamentos, o contato com a sabedoria intuitiva, a dilatação perceptiva, a inocência, a pureza, a espontaneidade, o estado de presença.

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