participação de Demian Reis e Ahprac Krahô no Heincomtraço de palhaço no Campo Grande 16 de outubro de 2011


RESENHA sobre “O Riso dos Hotxuás” – Ricardo Puccetti
por  Lívia Michele Carlos Pinheiro



O texto O riso dos Hotxuás, trata-se de um relato das experiências e das reflexões vividas por Puccetti durante sua estadia na tribo dos índios Krahôs, em Tocantins, para a filmagem de um documentário dirigido por Letícia Sabatella e Gringo Kardia. Este documentário teria como enfoque o Hotxuá, espécie de palhaço presente na tribo dos Krahôs. A partir deste texto, da apresentação do Hotxuá Ismael Ahprac no projeto Heincomtraço na Praça Ana Lúcia Magalhães, na Pituba, no dia 8 de outubro de 2011, do encontro com este hotxuá em uma das nossas aulas e da palestra Hotxuá e palhaço: intercâmbio e interações, levantei algumas considerações e reflexões sobre essa prática na tribo dos Krahôs destacando semelhanças e diferenças com o palhaço da nossa cultura.
Segundo Puccetti os Hotxuás estabelecem uma função social e são muito respeitados em sua tribo. Função esta de levar o riso às pessoas como faz um palhaço através de brincadeiras, imitações de animais e plantas, simulações de atritos, favorecendo então à manutenção da ordem e do equilíbrio entre os krahôs, que consideram a alegria um elemento básico da sua sociedade. Observa-se que de diversas formas e em diferentes sociedades surgem essas figuras cômicas apresentando características similares por onde quer que apareçam.
Os Krahôs passaram por muitas dificuldades históricas, como massacres por parte dos latifundiários devido à expansão da soja e a dificuldade de acesso ao rio devido à construção de hidrelétrica e os hotxuás com sua alegria ajudam a superar em parte estes acontecimentos. Semelhante função tem o palhaço que tende a ser uma figura forte nos momentos em que a humanidade vive grandes crises, momentos de guerras e turbulências, ajudando-a a superar as dificuldades através do humor. O palhaço busca a construção de uma manifestação cênica capaz de “humorizar” o mundo geralmente absurdo e trágico em que vive. Sua manifestação leva artista e público a transcenderem suas próprias dores. Por sua perspectiva lúdica, o palhaço supera sua tragédia por seu modo peculiar e cômico de olhar o mundo assim como fazem os hotxuás.
Destaca-se que não é qualquer pessoa que pode ser um hotxuá, este é um papel ritual transmitido pelo nome. Assim, diferente dos palhaços, os Hotxuás são escolhidos no momento do nascimento. Na adolescência ele pode decidir a continuar ou não a ser um Hotxuá. Também é possível alguém escolher ser hotxuá, desde que seja nomeado para que possa atuar com tal. Para o palhaço o nome também é importante para a sua identidade, porém a escolha em seguir essa arte é feito geralmente na idade adulta e por livre e espontânea vontade. 
Respeitadas as diferenças entre traços culturais presentes na apresentação vista na Praça Ana Lúcia Magalhães, na Pituba, e nos trechos do filme de Letícia Sabatella, é interessante observarmos as similaridades tanto em relação à função na cultura em que estas figuras estão inseridas, quanto ao fato de tanto o palhaço, como o hotxuá serem figuras que costumam desconstruir as regras. A presença dos hotxuás se faz necessária justamente quando a situação demanda seriedade e devoção (nos rituais por exemplo). O papel de desconstrução do hotxuá também fica evidente quando vemos as cenas do documentário em que eles vão derrubando uns aos outros. Os krahôs não têm o costume de se tocar e os hotxuás então quebram essa barreira e se agarram até cair no chão ou tocam as partes íntimas dos outros, etc.
Outra diferença entre os Hotxuás e os palhaços está no fato de que o palhaço se utiliza mais do recurso da oralidade do que os hotxuás. Por isto estes últimos utilizam, de forma muito rica, a sua corporeidade, assim como também faz os palhaços. Os hotxuás costumam divertir imitando as plantas, os legumes, derrubando uns aos outros em meio a rituais ou cenas do cotidiano da comunidade.
Nas apresentações do hotxuá Ismael, em Salvador, pôde-se observar que o fato de ele se apresentar mudo, provocou um pouco de expectativa na platéia, que está mais acostumada a ver palhaços que usam muito a oralidade. Todos ficavam aguardando alguma frase e ele seguia imitando uma abóbora, simulando que estava com fome, encenando uma queda de um banquinho, tentando interagir com algumas crianças, tudo sem emitir sons.     
Aos olhos da nossa cultura ocidental reconhecemos nesta figura o comportamento do nosso palhaço, cuja principal técnica é se colocar, colocar o seu corpo como alvo do riso de suas platéias.  Da mesma maneira, ao pintarem seus corpos, imitarem alteridades risíveis, tocarem uns aos outros, os hotxuás parecem afirmar a importância do seu corpo durante a apresentação.
As esquetes cômicas na palhaçaria ocorrem em direta interação com o público, que se abre completamente em risos e gargalhadas. A interação com a platéia também aparece nas apresentações dos Hotxuás. Na apresentação na praça da Pituba o Hotxuá Ismael Ahprac procura sempre interagir com as crianças, se mostrando encantado e ao mesmo tempo assustado com um brinquedo cheio de luzes de uma das crianças da platéia. Percebe-se, portanto que o Hotxuá é o palhaço em essência: com sua disponibilidade para o jogo e para o outro, seu prazer e capacidade de brincar com e para as pessoas.
E com relação à reação da platéia à apresentação de Ahprac, pude perceber que o público da Praça Ana Lúcia Magalhães reagiu inicialmente com estranhamento ao espetáculo. A praça fica em um bairro de classe média alta de Salvador o que pode explicar um pouco desta reação. É um público mais intelectual que estava tentando entender o que o espetáculo do “índio palhaço” e isso dificultava o riso. 
Quanto à apresentação física destaca-se que o nariz vermelho, ao lado da maquiagem e do figurino, é um inquestionável signo de identificação da linguagem do palhaço. Trata-se de uma representação simbólica, capaz de resumir a um espectador, de forma evidente e imediata, que está diante de um palhaço. Os hotxuás também têm seu figurino. A maquiagem, sempre muito pessoal, é feita com tinturas extraídas do urucum (vermelho), jenipapo (preto) e de pó de giz (branco). O curioso é que o vermelho, branco e preto também são as cores básicas das maquiagens do palhaço ocidental. Nas apresentações de Ismael Ahprac ele sempre estava com o rosto e o corpo pintado com tinta branca e um enfeite de palha na cabeça.
Os hotxuás ao contrário dos palhaços não têm repertório. Cada apresentação é única e o improviso é seu principal elemento. O “número” “A evolução do Homem” que Ahprac desenvolveu com o palhaço Tezo, no espetáculo na Praça da Pituba, é um número único. A apresentação deste mesmo número em outro lugar será diferente.
A apresentação em coletivo também é outra característica dos hotxuás. Nas imagens dos documentários pôde-se ver que eles sempre atuavam em grupo. E foi um desafio para o hotxuá Ahprac ter que se apresentar sozinho. Percebia-se que ele ficava mais a vontade quando dividia o palco com outro palhaço.  
Destarte percebe-se que os hotxuás assim como os palhaços têm em comum a sua expressividade, suas ações físicas, sua corporeidade e sua forma de se relacionar com o corpo, com o espaço e o público.  Os dois jogam com sua própria condição humana, se divertindo com isso, demonstrando que independente da cultura, o riso impera segundo regras universais da comicidade. Esta universalidade ficou evidente na apresentação conjunta do hotxuá Ahprac e do palhaço Tezo. Eles interagiram na rua de forma muito natural e com o número “A evolução do Homem” levaram a platéia ao riso.

Por fim, para além das semelhanças entre os hotxuás e os palhaços, destaco o conhecimento adquirido a cerca de outra cultura. Uma cultura indígena que, apesar dos massacres sofridos e da invasão branca em seu território e no seu cotidiano, ainda se faz presente e preservada nos seus costumes. Pôde-se conhecer um pouco da rotina, das lendas, dos principais rituais e festas dos krahôs, num intercâmbio cultural que atrai e encanta pela sua riqueza e diversidade. A notoriedade que foi dada a Ahprac durante sua estadia em Salvador, foi importante para fortalecer a cultura dos Krahôs. É importante que eles se sintam valorizados e que, principalmente os mais jovens, não deixem perder seus costumes em meio a “tranqueiras” tecnológicas, ao vício do álcool, e ao discurso do branco. 

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