entrevista de Casali para o FIAC

Entrevista: Alexandre Casali

Escrito por Thiago Guimarães Seg, 19 de Outubro de 2009 09:47

O espetáculo “Tataravó”, estrelado pelos palhaços Biancorino (Alexandre Casali), Tezo (Demian Reis) e Tirilili (Celo Costa), faz das ruas e praças de Salvador uma extensão dos palcos. A palhaçaria de rua também está bem representada no Fiac Bahia.

Confusões não vão faltar durante as apresentações dessa trupe, afinal, o que podemos esperar de um trio nordestino formado por palhaços? O espetáculo “Tataravó” acontecerá: nos dias 25/10, às 15h, no Campo Grande; 29/10, às 13h, na Praça da Piedade; e no dia 30/10, às 17h, no Terreiro de Jesus. Para adiantar um pouco, segue abaixo uma entrevista com Alexandre Casali, o palhaço Biancorino em “Tataravó”.

Fiac Bahia - Sua peça mescla a arte teatral do palhaço à música. Como funciona isso?

Alexandre Casali - Este espetáculo foi criado inicialmente comigo e com Demian [Reis] no elenco. Passamos um mês em Barcelona em 2004 aperfeiçoando o espetáculo. No mês seguinte o nosso grande amigo e exímio musico, Celo Costa, nos encontrou na Itália. A partir daí, tínhamos dois compromissos nesses dois meses que passaríamos juntos: musicar o Tataravó, para harmonizar com a entrada de Celo. E ensaiar músicas de forró, pois Celo tinha um show de forró marcado em Paris e eu e o Demian seríamos sua banda no trio nordestino de forró. Então, o próprio Tataravó foi nosso estudo de música com o Celo, que me ensinou a tocar zabumba neste período. Na medida em que aprendíamos xote, forró, baião, arrasta pé, valsas e chorinhos, incluíamos este tipo de música no nosso espetáculo de rua. Desta forma surgiu Tataravó, vivido por um trio forrozeiro chegando para tocar, que em suas confusões hierárquicas clássicas de palhaço, mescla um pouco de música à arte da palhaçaria. Toco Zabumba, o Demian triângulo e o Celo arrebenta na sanfona. A música deu o tempero brasileiro ao trabalho, ao mesmo tempo que a palhaçaria e a arte de rua universalizam o espetáculo.

“Tataravó” é uma montagem projetada para o teatro de rua, que tem como principais características o improviso e a interação com o público. Como é lidar com um público que, por alguns minutos, esquece o corre-corre diário e acaba parando para assistir ao espetáculo?

Para mim este é o grande risco e ao mesmo tempo o grande poder da arte de rua. O público pode te abandonar a qualquer momento. E também pode chegar a qualquer momento. Neste caso, reforçando a pergunta anterior, a música é um grande reforço para a fixação da atenção do público. Também digo que é na rua que atinjo meu objetivo existencial como artista, pois “sou o artista indo aonde o povo está”, como diz o cantor. Não trabalho em hospitais e nem vou a creches e asilos regularmente (ainda!). Considero a arte de rua o meu verdadeiro trabalho social. Pois está claro como as pessoas do mundo estão cada vez mais se levando a sério, e percebo que um bom espetáculo de rua, com palhaços de verdade (e não pessoas vestidas de palhaço), é um verdadeiro remédio contra esta fúria silenciosa que ronda o coração do homem. Porém o que amplifica o poder restaurador não é apenas apresentar na rua. Sou um grande admirador da ideologia de Augusto Boal, logo, o espetáculo é interativo na intenção maior de devolver ao público o poder expressivo da arte e quem sabe despertá-lo para a certeza de que todos somos essencialmente artistas. Quando o público entra no meio da roda de um espetáculo de rua, nós que mobilizamos aquele evento, nos tornamos coadjuvantes para que o Espectador, que veio jogar com a gente, brilhe. O público é o verdadeiro herói e é quem gera uma identificação saudável a todos que estão comungando daquele instante único que só a rua pode oferecer!

E que recursos vocês usam para prender a atenção do espectador?

Existem técnicas e trunfos conscientes que o artista de rua utiliza pra criar uma roda. A roda é o verdadeiro reflexo da força do artista que ela contém! Uma roda bonita contém três ou quatro camadas de pessoas em um grande círculo; é como quatro rodas em uma. E para se formar um ritual desses é preciso carisma verdadeiro, atenção amplificada, técnicas, virtuoses e uma boa costura dramatúrgica para segurar as pessoas até o final. A música, o domínio da arte do palhaço e do circo são exemplos de virtuoses.

A vida de palhaço já te levou para vários países. Como foi essa experiência? O público europeu, por exemplo, é muito diferente do brasileiro?

Acho que a diferença está apenas na consciência do valor da arte do palhaço. Na Europa o Artista de Rua e O Palhaço são Artes ancestrais fundamentais em uma sociedade. Mesmo na Suíça, onde disseram que o público seria frio conosco (rindo apenas por dentro), fomos surpreendidos por um interesse bem “caliente”. E mais! Se começasse a chover, não nos abandonavam, tiravam o guarda chuva e ficavam até o final, para darem no mínimo um valor equivalente a 10 reais no chapéu. Venho incentivando os palhaços que me acessam como orientador, a ocupar as praças da cidade e criar pontos de arte de rua, pois a desvalorização desta arte é uma questão de falta de oportunidades para o público. Em geral os artistas que vejo em Salvador, são muito ansiosos pelo dinheiro que irão receber, pois sobrevivem dessa arte. Mas terminam por esquecer a qualidade de sua apresentação e de seus adereços. O Chacovachi, grande Palhaço argentino e meu verdadeiro mestre da arte de Rua, diz que “...a roupa de um artista de rua e seus adereços são como uma armadura de um cavaleiro, de um guerreiro; devem impressionar o público”. E acho que este amadurecimento da cena de rua vem da prática e do interesse em ver estilos de outros lugares e outras formas de se fazer um espetáculo. Temos bons grupos de rua em Salvador, como o grupo dirigido por minha amiga Tainã Andrade, o “Felipe Mago e Zé da mala” que transitam em ônibus fazendo arte de verdade (e não só pedindo dinheiro); a “Cia de Teatro Popular”, que são fantásticos e muito criativos... Sou fã destas pessoas... Temos que contemplar mais a arte destas pessoas.

Que novidades vocês prepararam para a apresentação no Fiac Bahia ?

Neste caso, é surpresa! O público vai ter que vir conferir.

Nos últimos anos você atuou em um grande sucesso, a peça o “Sapato do Meu Tio”. O que você traz dessa experiência para Tataravó?

Na verdade, o “Tataravó” nasceu antes, e como este espetáculo me levou a passar três meses na Europa vivendo do chapéu, essa experiência que influenciou profundamente na estória que assino junto com o Lucio quando criamos “O Sapato do meu Tio”. Na peça tio e sobrinho vivem do chapéu arrecadado pelo tio, e é a arte de rua junto à arte do palhaço, que é ensinada ao sobrinho e deixada como herança. Hoje em dia, em Salvador, sou uma espécie de tio, deixando o máximo de herdeiros possíveis. Para que esta arte se preserve e tenha seu conceito revisto pelo meu querido povo soteropolitano.

Qual atração você considera imperdível no Fiac Bahia este ano?

Por enquanto só consegui acessar a programação baiana e adorei Doralinas e Marias. Mas sei que a “Noite dos palhaços mudos” também estará aqui e acho imperdível.


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